O FILHO QUE NÃO NASCEU – Por Fabiana Soares

 

Todos os dias acordo, tomo café e vou para meu escritório ler as revistas e jornais que recebo diariamente. Depois começo a escrever. Uns dias mais; outros menos inspirada. Mas isto faz parte do cotidiano de qualquer escritor. Vivo de meu trabalho, que é escrever histórias infantis. Gosto do que faço, acho que estou na profissão certa. Já tive oportunidade de morar fora do Brasil, mas sinto que meu destino é aqui. Não sei dizer o porquê, embora tenha tentado achar mil motivos, sei que nem um deles é o bastante para justificar minha teimosia de ficar no país.

 

As únicas companhias que tenho é de meu cachorro Leleco que tem perto dos 13 anos, de minha gata sol que deve ter uns oito anos, de minha calopsita Belinha que tem sete anos, e de um casal de pombos brancos que vem me visitar todas as manhãs, já faz alguns anos. É estranho dizer que eles vêm me ver, mas é verdade. Não sei se é porque minha escrivaninha fica ao lado da janela e eu geralmente deixo os vidros abertos e eles já se acostumaram a vir ali, até porque eu dou alpiste para eles todas as manhãs ou porque gostam mesmo de mim, o que é meio imaturo de minha parte pensar, já que bichos não têm raciocínio.

 

Levo uma vida tranquila, apesar de ter somente 23 anos, sou uma pessoa reservada, não gosto muito de baladas, festas e outras coisas que moças da minha idade geralmente gostam de fazer. Sempre fui muito estudiosa, formei-me cedo em psicologia que era o sonho de meus pais, mas nunca atuei na área, pois sempre gostei muito da literatura, seguindo por esta área, o que me possibilita viver sozinha e conseguir me manter financeiramente.

 

Não tenho namorado, apesar de ser uma garota bonita, ter um corpo quase perfeito e modestamente ser inteligente. Os rapazes até tentam se aproximar, mas como não demonstro interesse eles acabam desistindo. Um pouco é culpa mesmo minha; outra é o remorso que carrego no peito. Remorso que não é só meu, acho que também foi de meus pais. Eu não deveria ter permitido aquilo, mas como eu era muito jovem, quase uma criança, não tive alternativas. Hoje sei que errei, mas a quem culpar… aos meus pais ou a mim mesma. Não sei!

 

A única coisa que tenho certeza é que se eu tivesse deixado aquela criança nascer minha vida teria sido diferente. Hoje eu sei que errei ao ter permitido que abortassem meu filho ou filha, nem fiquei sabendo o sexo. Se a criança estivesse comigo hoje teria oito anos. Está certo que eu só tinha 15 anos e que a gravidez veio como uma bomba para mim e para os meus pais, mas eu estava disposta a criar a criança que eu não permiti que nascesse. Talvez por isto Deus me castigou, levou para junto de si meus pais e me deixou aqui na terra quase sozinha. Aliás, não tão só porque ainda tenho meus animais de estimação e o casal de pombos que sempre me visitam. Além destas companhias, ainda tenho a da minha tia Rosa, que vem me ver todas as semanas e sempre trás quitutes deliciosos que eu como no café da manhã. Sinto não ter tido irmãos, pois talvez a minha vida não fosse assim tão sozinha. Depois de meus pais minha tia é a única pessoa que sabe o sexo do meu bebê, que não teve a chance de viver. Perguntei várias vezes, mas ela disse que prometeu a meus pais nunca me contar. E isto me machuca muito, pois se eu soubesse poderia rezar e tentar minimizar um pouco esta angustia que está me matando aos poucos. O remorso é tão grande que às vezes tenho vontade de morrer. Eu jamais me perdoarei pelo que fiz, não tem perdão. Não dar a oportunidade de um ser indefeso nascer é como apunhalar a quem nós mais amamos pelas costas. É covardia!

 

Sei que todos nós temos uma cruz a carregar, mas a minha é pesada demais. Dói saber que, muitas vezes, os erros que comentemos não têm volta. São irreversíveis. Não tem o que se possa fazer e isto é muito triste, não tem explicação, só passando por situações assim é que podemos sentir o estrago emocional que elas causam. E por falar nisto hoje é dia de eu ir ao psiquiatra, o qual cuida de mim há anos. E para minha surpresa a sessão de hoje será com a minha tia. Ele me pediu permissão para que ela participasse da consulta e eu permiti. Ele disse que seria bom para o meu tratamento, já que ela é a pessoa mais próxima de mim.

 

Já na sala do Dr. Rubens, encontro-me sentada de frente para tia Rosa e ele do meu lado. A conversa transcorre normalmente quando ele diz com firmeza que a partir desta conversa eu terei a resposta de minha maior dúvida e talvez o caminho para minha melhora emocional, pois ele também é espírita. Neste momento tia Rosa segura nas minhas duas mãos e diz: “Chegou o momento de você saber e resposta para tua pergunta, minha menina! Escuto estas palavras e tenho a sensação de que vou desmaiar, mas continuo olhando firme para ela, sem saber ao certo o que pensar. Por minha cabeça passam milhões de pensamentos, até que volto em si, com as palavras do Dr. Rubens.

 

Agora mais centrada, peço a minha tia que me diga o sexo do meu bebê. Sem enrolar ela me diz: “era um casal de gêmeos minha menina”. A resposta foi como um soco no meio do meu estomago, fiquei pasma e muda. Não consegui chorar, nem gritar, era como se o mundo estivesse desabado em cima de mim.

 

Fui para casa pensando mil coisas e na manhã seguinte fui para a janela escrever e percebi que depois de anos o casal de pombos não veio mais me visitar. Assim como não veio no dia e no mês  seguinte. Agora eu sei quem eram os pombos….

 

Fabiana Soares é natural de Bom Jesus,  jornalista, formada pela UNISINOS, pós-graduada em jornalismo pela PUC e mestre em linguística pela UFSC. Atualmente é professora universitária da FACVEST  e da rede estadual de ensino. Também é assessora de imprensa da Prefeitura Municipal de Bom Jesus.

 

 

 

 

 

 

 


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Everaldo Camargo

Diretor Geral, mora em Bom Jesus-RS
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