CONTOS DE FABIANA SOARES – ESTRELA

*Estrela*

 

Minha barriga pesa bastante, já sinto até o início das contrações, não vai demorar muito para minha filha Estrela nascer. Estou tão feliz, pois ser mãe é tudo que eu sempre quis, além do mais depois de saber que dar a luz seria praticamente impossível, devido a sérios problemas que tenho no aparelho reprodutor, mas com a medicina bastante adiantada, graças a Deus, tudo deu certo, e daqui a pouco terei em meus braços minha filhinha, meu tesouro, minha Estrela. Aliás, escolhi este nome por dois motivos, primeiro porque é o nome de minha Trisavó, a tatá Estrela e segundo porque minha filha é uma estrela que está vindo para iluminar a minha vida. Pena, que a tatá Estrela está quase nos deixando, perto de completar 107 anos, não tem muito tempo de vida, chegou sua hora. Está quase partindo e se é para Deus a levar, que a leve logo, pois não aguentamos mais ver sua dor. Mas, sinto que ela não quer partir sem antes pegar nos braços sua primeira trineta, a Estrelinha, minha filha que ainda não nasceu.

Ai! Começo a sentir as contrações mais fortes tem que ir para o hospital. É difícil ter que sair de perto da tatá Estrela, ela está agarrada em minhas mãos e olha profundamente em meus olhos. É como se quisesse me dizer algo, mas já não consegue mais falar.

Sempre a amei muito. Tudo que aprendi e o que sei devo a ela.

A dor que toma conta de meu peito agora, só não é mais forte, porque sei que um ser indefeso e totalmente dependente de mim irá nascer e que a tatá, apesar de não estar mais aqui para vê-la crescer nunca me abandonará, estará sempre presente em meu coração e em minhas lembranças. Vou contar sua história de luta, coragem e acima de tudo de bondade a minha filha. Quero que toda nossa geração saiba quem foi a tatá Estrela, aquela mulher que soube amar, perdoar, ensinar e acima de tudo lutar por um mundo melhor. Nossa! Minha bolsa estourou. Olho para a tatá Estrela e digo para ela não partir. Não, agora que está tão perto de conhecer a Estrela. Saio depressa a caminho do Hospital Nossa Senhora dos Solares e deixo-a ali deitada, tão frágil, tão velhinha tão indefesa, minha vovozinha querida, e se a pouco tempo pedi a Deus que não a deixasse sofrer mais, agora rogo a Deus que acalme sua dor e que lhe permita conhecer sua trineta.

Já na sala de parto, anestesiada, e com um pouco de enjoo, não consigo me mover, mas escuto atentamente o que os médicos falam. Eles conversam sem parar, contam um para o outro como foi o seu final de semana, do churrasco de sábado à noite e da briga de cunhados. E eu ali prestes a dar a luz. Para mim, um momento único, mágico, incomparável a qualquer outro momento que tenha vivido; para eles um procedimento de rotina.

Não demora muito e escuto um chorinho é a Estrela, Ela nasceu. Neste momento sinto um aperto muito grande no peito. Não sei dizer o porquê. Na verdade sinto uma sensação de alegria e ao mesmo tempo de tristeza. É algo que neste momento não sei explicar. Em meio aos meus devaneios, agora meio acordada, meio dormindo, talvez pelo efeito da anestesia, escuto o pediatra me dizer que o bebe é perfeito e lindo. Neste momento o médico coloca-a em meus braços e eu sinto em fim a sensação de ser mãe. Em seguida, adormeço.

Já no quarto 365, na ala pediátrica, do Hospital Nossa Senhora dos Solares acordo. Nossa parece que se passou um século. Volto à realidade e a primeira coisa que me vem à mente é saber notícias de minha tatá, e é claro também ver meu bebezinho. Neste exato instante entra no quarto minha mãe, vejo que seus olhos estão inchados de tanto chorar, não precisa dizer mais nada, já entendi, tatá Estrela partiu, nos deixou, morreu.

A notícia vem como uma bomba para mim, apesar de já estar esperando por este momento. Só que eu não queria que fosse hoje, justamente no dia mais feliz de minha vida. Mas como nós não podemos mudar as páginas de nossas vidas, me reservo a chorar baixinho, me envolvo em meus pensamentos e recordo os últimos momentos em que estivemos juntas, tento decifrar as palavras que ela me disse e que não consegui escutar, mas é em vão. Nesse momento sou dispersa com a chegada no quarto da Estrela. Ela é linda, se parece bastante comigo, trás as feições de nossa família. Me emociono. É inexplicável a sensação de pode amamentá-la.

Agora, já passa das 14 horas, do dia seguinte ao nascimento de Estrela. Entra no quarto a mulher do cartório. Veio registrar minha filha. Me faz algumas perguntas como o nome do bebê, da mãe, do pai e a hora em que ela nasceu. Lembro-me perfeitamente ela nasceu às 23h28min de ontem, respondo sem hesitar. Mas para ter bem certeza olho em sua carteirinha que está em cima da cômoda, ao lado de minha cama. Confirmado. É este o horário.

Tudo parece percorrer naturalmente. Eu e minha filha ali. Uma dependendo da outra. Fico sabendo que o enterro de vovô será logo mais, no entanto, não tenho permissão do médico para dar alta, pois estou muito fraca ainda. Assim, um pouco mais conformada me alegro em poder mudar a Estrela pela primeira vez. Sozinha no quarto, só eu e ela, começo a trocar sua roupinha e aproveito para colocar nela o primeiro presente que ganhei da tatá um tipe-tope cor de rosa, o que sempre me intrigou muito, pois desde que descobri que estava grávida ela sempre me disse que seria uma menina, e que ela me traria só alegrias. Tudo estava transcorrendo bem, quando derrepente vi atrás de sua orelhinha direita uma pequena estrelinha, a mesma que vovô tinha e que foi a responsável por seu nome. Neste instante passou mil coisas pela minha cabeça, não, não poderia ser o que eu estava pensando. Pedi para minha mãe a certidão de óbito de vovô. Lá estava escrito hora do falecimento de Estrela das Graças Aparecida, 23h28min. Agora eu sei o que ela tentou me dizer nos últimos minutos de sua vida.

 

Fabiana Soares é natural de Bom Jesus,  jornalista, formada pela UNISINOS, pós-graduada em jornalismo pela PUC e mestre em linguística pela UFSC. Atualmente é professora universitária da FACVEST  e da rede estadual de ensino. Também é assessora de imprensa da Prefeitura Municipal de Bom Jesus.


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3 Comments Quero comentar!

  • Parabéns!!!!!!!!!!! Muito bom, continue escrevendo outros…..

    Comentário by Lucégia — 24 de setembro de 2013 @ 19:54

  • que lindo Fabiana! continue escrevendo…., Parabéns!

    Comentário by adriana — 24 de setembro de 2013 @ 20:56

  • Oii td bem Fabiana,sou aqui de ctba,estou esperando meu bebe e qd minha mãe me perguntou qual seria seu nome eu nem tinha pensado em nome algum apenas qd ela me perguntou eu então pensei e por íncrivel que pareça não me veio outro nome a não ser esse Estrela,e num tive muitos fãs por este nome viu,depois vi que tem algumas poucas pessoas com esse nome e vendo sua história acho que vou continuar com meu pensamento pois sua história é muito bacana Linda mesmo,achei o máximo,sempre vi ela com esse nome mesmo as pessoas não aceitando muito bem.Minha Estrela é pra nascer final de julho deste ano,bjss,td de bom.Any.

    Comentário by A — 6 de junho de 2014 @ 16:46

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Autor desta matéria

Everaldo Camargo

Diretor Geral, mora em Bom Jesus-RS


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