CEMITÉRIO – Por Fabiana Soares

CEMITÉRIO

Nossa! De novo. Não aguento mais sonhar com a mesma coisa, o mesmo cenário, o mesmo lugar, o mesmo entardecer, o mesmo canteiro de margaridas no portão de entrada, a mesma estrada de chão batido em frente ao portão. Até o som dos passarinhos cantando no silêncio que paira sobre este lugar. A cada sonho me esforço para ler o que está escrito no arco em cima do portão, mas não consigo, é em vão todas as tentativas. Está apagado, as letras estão ilegíveis, e isto me intriga bastante. É estranho ou mesmo meio mórbido sonhar sempre com a mesma coisa. Já pensei em procurar um psicólogo, psiquiatra, espírita, padre ou qualquer outra pessoa ou profissional que possa me ajudar a desvendar este mistério que paira sobre mim, mas tenho medo, medo do que eles possam me dizer, medo de me envolver com algo que, às vezes, para mim é tão importante e outras nem tanto, porque em meio a tudo isto, acho que até me acostumei com este sonho, porque quando ele não faz parte de minhas noites bem ou mal dormidas me faz falta. É incrível parece que estou enlouquecendo em pensar assim. Quando não sonho com isto é como se faltasse algo, como se faltasse, por exemplo, o chá de maça que tomo e os biscoitos com geléia que como todos os dias, pois adoro doces e em falar em doces minha outra paixão não é nada de se beber ou comer, mas é a arte. Acho que sempre adorei. Nasci respirando a arte. Amo quadros antigos, monumentos históricos, estatuas, pirográfia. Sou uma frequentadora assídua de museus, teatros, cinemas, exposições. Desde que me conheço. E olha que já fazem 41 anos, sempre fui uma apreciadora de obras de arte. Quando tiro férias aproveito para conhecer novos museus, bibliotecas, lugares históricos. Eu respiro a arte. Não é por acaso que sou historiadora, museóloga e crítica de arte. Acho que ninguém é o que é por acaso. Não acredito em destino, nem em profecias, mas acho que o universo foi caridoso comigo. Posso dizer que sou uma pessoa feliz, satisfeita tanto pessoalmente como profissionalmente. Nunca me casei, mas não foi porque não quis, pretendentes é o que não faltou ou não faltam, pois ainda arranco muitos suspiros. Modesta parte, não sou narcisista, mas sou bonita, morena, de cabelos pretos e pele branca e muita coisa ainda para fazer na vida. E por falar nisto estou novamente envolvida com meu trabalho. Me encontro, neste momento, em uma pequena cidadezinha, localizada no interior do Rio Grande do Sul, onde daqui a pouco vou ministrar uma palestra sobre história antiga. Fui convidada pela secretária de Turismo do município. Não sei porquê aceitei, pois, afinal de contas, já posso me dar o luxo de escolher melhor meus trabalhos. Aliás, acho que aceitei o convite pela simpatia dela que me cativou ao falarmos por telefone. E como é uma sexta-feira posso aproveitar para conhecer o interior do município, já que o lugarzinho tem um Parque arqueológico riquíssimo. Por aqui já foram encontrados restos de répteis que viveram a milhões de anos antes de cristo, além de outros objetos que denotam a passagem de índios por este local, isto sem falar no orgulho do município de Solares que é o museu local, que segundo amigos historiadores que já estiveram aqui tem uma riqueza de informações inigualáveis . E para mim acho que é um prato cheio.

Bom, já passa das 14 horas e o Plenário da Câmara de Vereadores está lotado. Acho que toda a população do município está aqui para assistir a minha palestra. Nossa! Quanta emoção. Acho que nunca fui tão aplaudida em minhas explanações. Estou me sentindo tão bem neste lugar. As pessoas são simpáticas e educadas. Estou surpresa com o sucesso que minhas palavras causaram. Ufa! Depois de três horas falando estou exausta, mas com muita vontade de conhecer o museu local, o que não me trará grandes transtornos já que aqui ao lado.

Puxa! Quantos objetos históricos. Tem até ossos de um crânio de réptil. Quadros, muitos quadros de pintores famosos, e outros nem tanto, que por aqui passaram ou aqui viveram. Mas diante de tanta beleza para os meus olhos, eis um quadro que repentinamente me chama à atenção. Diante dele minhas pernas perdem o movimento, começo a tremer, meu coração dispara, tenho a sensação de que um buraco se abriu no chão e que vou cair. A partir daí, desmaio. Acordo minutos depois com um médico ao meu lado e a sensação de ter se passado séculos. Aos poucos me recupero e tento entender o que aconteceu, o que não é difícil, pois acima de minha cabeça e pregado na parede está o mesmo quadro que vi segundos antes de desmaiar. Agora um pouco mais calma e sem comentar com ninguém o que me levou a perder os sentidos começo a entender aos poucos o sentido de minha vinda até Solares. Levanto-me e olho novamente para quadro e vejo nele o mesmo portão que enxergo todas as noites em meus sonhos, com o mesmo arco, só que aqui é diferente. Agora consigo ver o que está escrito no arco “Cemitério Público de Solares”. Nossa! Que descoberta. Isto significa muito para mim. É a chave que talvez me leve a descobrir o mistério de meus sonhos. O quadro que não trás a data de quando foi pintado, trás o nome da pintora que se chama Valentina Maria das Flores.

Após me recuperar novamente do choque, pois é uma surpresa atrás da outra, pergunto aos moradores onde fica o Cemitério e tenho a informação de que é a uns30 kmdaqui. Disseram que desde que foi construído um novo Cemitério a mais de 20 anos aqui na sede, não se sepultam mais ninguém por lá. Apesar de ter também a informação de que o Cemitério não foi totalmente abandonado, ainda se tem um funcionário público, o seu Coveiro, como é conhecido por aqui, que trabalha e mora ao lado do Cemitério a mais de 50 anos. Como disse que tinha vontade de conhecer o local, o prefeito pediu a um motorista que me leva-se até lá, já que optei por ir sozinha. Agora, pontualmente às 19 horas, o sol querendo desaparecer e a lua aos poucos se pondo, vejo aqui, neste instante, diante de meus olhos, o mesmo portão, o mesmo cenário, o mesmo lugar, o mesmo entardecer, o mesmo canteiro de margaridas, a mesma estrada de chão batido em frente ao portão que fazem parte de meus sonhos desde que eu tenho lembranças.

Ao me deparar com tal situação, respiro fundo para não desmaiar de novo. Crio coragem e entro no Cemitério. Lá dentro não tenho sensação nenhuma, nem de medo, nem de surpresa, nem de emoção. Fico apenas olhando os quase 60 ou 70 túmulos que ali se encontram, uns mais conservados, outros menos, mas todos muito bem limpos. Aliás, o local é muito bem cuidado. De repente sinto uma mão no meu ombro. Ao virar-me para trás vejo que se trata do seu coveiro. Cumprimento-o. Ele responde ao meu cumprimento ao mesmo tempo em que olha forte em meus olhos, pergunta se preciso de um guia, respondo que não. Ele entende, diz que então vai para sua casa e que se eu precisar de alguma coisa é só bater em sua porta. Acho estranho, porque de acordo com o prefeito o seu coveiro adora mostrar os túmulos as pessoas que vão até ali por um ou por outro motivo, mas não ligo, afinal de contas ele já deve ter mais de 80 anos. Tudo isto serviu para dispersar minha atenção e me deixar mais calma para seguir em frente, conhecer o Cemitério, já que agora, tenho certeza, de que aquele lugar significa a chave para desvendar meus pesadelos. Não chego a caminhar muito e logo estou diante de um túmulo sombrio, mas extremamente bonito. A estatua de um anjo enorme e de asas brancas ornamentam o túmulo. Chego mais perto, pois àquilo me chama a atenção. Olho firmemente para a foto e o nome da pessoa que ali repousa sobre as asas daquele anjo, chama-se Valentina Maria das Flores. Data de nascimento 13.08.1929, data de falecimento 20.09.1970. Ali está à resposta de tudo Valentina morreu o dia em que eu nasci. A foto, a foto. É a minha foto. Agora eu sei. Eu morri o dia que eu renasci ou que reencarnei. Eu fui a Valentina, eu sou a Valentina……

 

Fabiana Soares é natural de Bom Jesus,  jornalista, formada pela UNISINOS, pós-graduada em jornalismo pela PUC e mestre em linguística pela UFSC. Atualmente é professora universitária da FACVEST  e da rede estadual de ensino. Também é assessora de imprensa da Prefeitura Municipal de Bom Jesus.


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Autor desta matéria

Everaldo Camargo

Diretor Geral, mora em Bom Jesus-RS


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